Não. Não se trata daquele personagem que, por conta de não enxergar lá muito bem, vivenciava situações um bocado atrapalhadas. Qualquer semelhança deste Mr. Magoo com o entrevistado da vez é mera coincidência propositalmente adquirida com a armação dos óculos.

Tu é um cara ‘musicado’, inclusive é batera numa banda. Me diz o que tu tá ouvindo por esses dias.
– Eu ouço muita coisa diferente, mas vamos tentar fazer um ‘top five’ diversificado: tenho ouvido uma banda que conheci há pouco tempo Those Dancing Days, ouço religiosamente todos os dias Dinosaur Jr., tenho ouvido Fountains Of Wayne, Superchunk, e tenho me aventurado ultimamente a escutar algumas coisas fora do rock, como jazz, mpb, tenho curtido conhecer o trabalho do Chico Buarque mais a fundo. Ah, e tenho ouvido as gravações do disco do Twinpine(s), minha banda, o cd deve sair logo mais.
Chico é a Capitu da MPB.
– Pois é, por isso fui na fonte.
Guri, adoro a arte do Mark Ryden; sei que tu também. Aliás, do que tu mais gosta nos trabalhos dele?
– Ele é uma espécie de mentor no estilo de traço que ele tem, na minha opinião. Depois que a pintura dele se ‘popularizou’, muita gente acabou indo nessa fórmula de estética de personagem, mas eu vejo muito mais que isso no trabalho do Ryden, vejo o conceito por traz das situações que ele ilustra. Conheço ele antes de ser um pintor famoso nesse universo underground, pois ele fazia capa de discos, ilustrações pra revistas e livros americanos (…) A técnica de pintura dele é de uma precisão incrível, e em trabalhos comerciais ele mostra às vezes uns traços que quem não o conhece a fundo nem sabe que é dele. Como na capa de ‘Dangerous’, do Michael Jackson; ou na capa de ‘One Hot Minute’, do Red Hot Chilli Peppers (…) Esses com cara de ‘clássicos’ são inspirados em ilustrações de enciclopédias dos anos 20, 30 e 40 e em livros de ciência antigos também.
Goo, tu diz no teu orkut que ‘trabalha com o que sonhou’. Já se deu por satisfeito com os teus sonhos?
– É, eu trabalho com o que sempre sonhei, que é pintar, ilustrar, criar tocar, e mostrar meus trabalhos p/ outros (…) Mas como disse la também ‘meus sonhos vivem mudando de lugar, fazendo com que eu continue sonhando, e fazendo da minha vida uma obra de arte constante’. Eu ainda tenho muitos sonhos pra realizar dentro desse meu universo de sonhos praticamente infinitos e mutantes. Claro que sempre envolvendo minha arte e minha música como base.
E digamos que ‘aleatoriamente’ arte e música gostam de se encontrar no meio disso tudo.
– Ah, sim! Costumo dizer que sem música não faço minhas pinturas (e vice-versa). Afinal, pra compor, também uso a imaginação e, às vezes, ‘ilustro’ a música com imagens da minha cabeça.

Se tu morasse em Springfield, dos Simpsons, quem tu seria e por quê?
– Tenho o Homer tatuado no braço, preciso responder quem eu seria? (série progressiva de risos). Na verdade, acho que ele é meio que meu alterego, mas acredito que eu tô mais pra algum personagem especial, acho que eu serviria facilmente de base pra um personagem do Matt.
E eu super acredito que uma tatuagem é um argumento e tanto. Tattoos são grandes argumentos, aliás. E se dizem por si só.
– Ou reflete a personalidade da pessoa ou representa uma certa fase na vida dela, experiências pela qual passou, momentos especiais, ruins; ou algumas apenas se tatuam por estética, o que também é valido.
Qual é a coisa mais legal de se fazer em São Paulo?
– Poxa, pergunta difícil essa (…) Eu sou uma pessoa que gosta de ser livre, e poder ter a opção de fazer o que eu quero a hora que quero, ainda mais em SP, que se tem muitas coisas pra fazer (…) Eu gosto de sair com meus amigos pra fazer diversas coisas: ir à uma boa exposição de arte, ir à um show bacana, tomar uma cerveja, ou até simplesmente passar observando as coisas por aí (…) Sou um observador, curto andar na rua ouvindo um som, e olhar pra o que acontece. Acho que ouvir um som e ver as coisas acontecerem me dão uma visão unilateral do que realmente esta acontecendo lá fora – lá fora no mundo real, uma vez que minha cabeça está vendo de uma maneira diferente devido à trilha sonora.
Pra ti: mataram o Kurt Cobain ou ele se matou?
– Cara, tenho muitas dúvidas quanto à isso, mas, assim, vendo o documentário, me deu uma certa suspeita de que mataram-no. Mas acredito que ele era bem deprê pra fazer isso (…) ele mesmo. Pô, você já leu as letras dele? Ele era um gênio musical-poético, mas era down pra caramba. Na real ele não suportou o lance de ser um pop star. Ele era um cara simples, com um talento à frente dele mesmo (…) Sei lá, acho que ele se matou por causa das drogas, das cobranças empresariais, fazer muitos shows, lidar com muito dinheiro, e ainda por cima ter que aguentar a Courtney Love (risos).
O que faz mais sentido (ou não, depende do ponto de vista): niilismo ou teoria da conspiração?
– Não sei (…) O mundo é muito grande, as possibilidades são muitas. Eu me excluo de qualquer coisa dessas, vivo meu conto de fadas. Prefiro acreditar num mundo melhor, onde a música seja pra agradar, e as tintas pra colorir. Não me preocupo com coisas negativas, elas existem (fato) mas prefiro deixar as coisas como estão, alguém vai se preocupar com isso no meu lugar.
Café ou Coca-Cola?
– Coca-Cola. Não tomo café NUNCA. E chá mate gelado, ao invés de água.