Arquivo para a categoria 'Diamante'

Ácido.

Feriado bom. Texto do Pedro Tinho tão bom quanto.

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Percebeu as coisas estranhas quando todos olhavam seu vago pensar intrigados porque ele não comia. Sorriu distraido e então lembrou que não gostava muito de ervilhas, tampouco de brócolis. Se fosse ele quem o servisse, provavelmente não tocaria na salada. A carne regada ao molho de azeitona e cebola agredia seu estômago apenas pelo cheiro, mas junto com o arroz branco, alcançavam perfeita simetria nas cores e na disposição.

dinner

(Cindi G.)

Talvez divagasse sobre o impossível. Isso o entre tinha quando faltava coragem de encarar os olhos que o fitavam julgosamente. O suco cheirava doce, e o brócolis insistia em parecer a sua mãe: coma, é o gigante que devora as pequenas árvores. Seu pai diria apenas coma, mas o pai dela na atual conjuntura não conseguia nem cuspir o que sentia.

Confrontava cada nuance do vento, que criou pra se distrair. Conheceu a menina na cerveja, criou-a no jazz e a devorou no samba. Dilacerou-se em apenas dois momentos: o primeiro confronto e o enfim, a ceia familiar. Já não se importava em parecer agradável.

Soou como uma nota de pistão desafinada. Apenas sorriram quando encheu os olhos de ervilha e respirou o brócolis. O garfo na testa passou-lhes despercebido.

Quintal de Corumbá.

Antes de sucumbir ao conto, aviso: Pedro Tinho está com a faca e a peixeira na mão. Ou seja, esse post está total blood.

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Começou a lavar apática a louça do almoço de domingo. O sol batia nas águas do rio Paraguai, passava furtivo por porta e janelas abertas e explodia na parede, na geladeira e nas costas do seu vestido branco decotado. Subia pelas morenas coxas grossas, que suavam com o calor.

As panelas velhas ainda cheiravam ao caldo das piranhas, pescadas ali, na imensidão de água em que terminava o quintal. Encostada na pia que molhava o ventre, sentia o calor do caldo enrijecer os seios e ensopar a calcinha. Passou as mãos cheias de sabão pelos cabelos e nuca. Uma das mãos afundou no decote. A outra apoiou-se na prateleira para sentar de pernas abertas e esfregar-se na quina do fogão. Gritou e gozou sem cerimônias.

(Eliel Jr.)

(Eliel Jr.)

Mais do que as cebolas que faziam chorar ou a palha de aço que cortava a mão, o que lhe doía era tanta piranha que sobrara. E como ainda haveriam de encher as prateleiras e gavetas da geladeira. Só pra si.

Lavou a jarra de suco, o prato, tábua e talheres. Cortou por acidente a ponta do dedo indicador com a peixeira. Ficou o olhar fascinado nas gotas de sangue que saiam por ele. Fez um corte superficial nos braços pra cada nova aventura ou amor ou paixão ou cagada que soube da vida do marido que perdeu pra vida.

Gotejava, como que de seu corpo corressem lágrimas. Abdicou do pano de prato e limpou os braços no vestido. Encostou-se à porta a olhar o quintal. Sorriu e caminhou em direção a água. Molhou os pés e arrepiou-se até a cabeça com a água gelada.

Entrou no rio devagar. O vestido molhou a passos lentos, turvando a água de sabor de sangue. Num leve movimento, ficou de costas e passou a boiar a mercê das mares. Sorriu até o último pedaço de lábio ser devorado pelas piranhas.

Desde maio.

(Paulo Brabo)

(Paulo Brabo)

Caiu em desuso há um bom tempo escrever em máquinas de escrever, pela coerência com os tempos modernos. Apenas ele insistia. Todos os dias de manhã, assim que acordava, escrevia nela, mesmo que coisa sem sentido, mesmo que coisa breve. Apenas por tocá-la.

Sentia prazer em tocá-la. Mesmo que noutro tempo, mesmo que noutro espaço. Ao bater seus dedos, o cenário trocava: era tempo de seu tempo, tempo de ser tempo, tempo de ter tempo de escrever sua história. Só dependia do tempo que levaria para bater os dedos.

A história que escreveu continuou sem que fosse preciso tocar a máquina, sem que fosse preciso ver. Limpou as engrenagens, trocou a fita de tinta e empilhou um novo calhamaço de papel. A máquina hoje se escreve, ao ponto que ele não se toca mais.

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Escrito por Pedro Tinho.

as coisas findas, essas ficarão.

Entrevista com Alexandre Inagaki, produzida pela revista Capitu e publicada aqui.

Obedeça o papai.

O aviso pendurado na parede era bem claro:

“Não mexer nos cutelos”

Mas elas não ouviram. Subiram na pia, abriram o armário e junto deles, mexeram nas facas de peixe e nas de corte mais afiado. Separaram a comida do cachorro, deram de beber as plantas e, então, plenamente satisfeitas do não haver mais responsabilidades, deliciaram-se a entender as facas espalhadas pelo chão.

Quando a menor deixou cair o cutelo nos dedos da garotinha de 7 anos, foram três os dedos que se partiram. Três também foram os gritos de susto que deram antes de cair em gargalhadas. No auge dos seus cinco anos, abaixada recolhendo dedos da irmã e enxugando o sangue, perdeu seu braço pra uma vingança divertida.

As risadas eram ouvidas do jardim. Qualquer que se aproximasse veria no inconsciente duas garotas a se divertir com bonecas.

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Autoria oficial: Pedro Tinho – canceriano, jornalista e adoravelmente sanguinário.

Let It Be

E o primeiro papel de parede oficialmente publicado pelo Téo Brito leva como inspiração uma música (muy afudê) dos Beatles – melhor que a canção, só a tattoo do Robbie Williams.

teobrito

Porque o amor é importante, porra!- e o Robbie também.

Roteiro do não dito.

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(Alfredo Amaral)

O chá de boldo amargava as xícaras quando Ana resolveu abrir as janelas. O pouco de sol não resolveu enquanto houveram nuvens, densas e frias. Aos cães, sobravam as sinfonias da lua cheia. A noite forasteira e repentina mal deixou a polenta e o arroz ficarem prontos. Das velas e pequenas lâmpadas (dos abajures dos cantos da sala), luzes coloriam as retinas. Corujas piavam quando Roberto chegou.

(…)

Cauterizados pelo gosto do vinho, alguém discordou da salada de rúcula enquanto o fogo já consumia as cadeiras, mesas e a prateleira das louças.

- As cebolas são o problema. Ou talvez os alhos e o limão, não sei ao certo.
- Talvez seja melhor fazer peixe.
- Com fome ainda?
- Sinto muita fome pela manhã.

(…)

De tolhas sentados na cama, fumando cigarros fedidos e cheirando vinho, surgiu a discórdia quanto ao tempo dos lados dos vinis.

- Cansei de Billie Holiday. Um lado de Guizado?
- Um lado do seu melhor vinho garçom.
- A senhorita dança muito bem para uma polaca.
- São estímulos mútuos, senhorito.

(…)

Não tocou na quínua e nos pães, nem no leite.

- Enchi as garrafas e peguei os bilhetes. Tomemos um sorvete?
- De framboesa e limão?
- De laranja com fotografias.

(…)

Pensou pra si:

- O que fazer com as corujas?
- Quer café?

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Porque o Pedro Tinho escreve de um jeito que ninguém é capaz de escrever. Tão naturalmente dele.

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