Na teoria, torna-se cabal nos cercarmos de ideologias, preceitos ou sermos meros seguidores de gente que faz e pensa em alguma coisa (qualquer coisa). Na prática, esse contexto muda radicalmente de figura porque ao passo em que se torna fácil acrescer idéias e demonstrar crença nelas, existe uma tênue dificuldade em anunciá-las efetivamente a ponto de fazer com que esses anseios se concretizem e, que disso, surja algo veridicamente real.
Existe um cara lá na gringa – agora ele tá morando em Nova Iorque – que faz valer o ensejo da frase acima. É o idealizador do It’sGreenDesign (que conta a colaboração do arquiteto Patrick Fontes): Max Poglia.

Considero muito afudê o conceito do It’sGreenDesign e gostaria de saber a tua opinião a respeito do projeto antes e depois dele ser criado.
– Acompanhando o lançamento de uma linha “eco” da Adidas em Milão, que tinha utilizado como “teaser” bicicletas azuis espalhadas pelas ruas da cidade, fui convidado a participar de uma pesquisa quali e, como publicitário, não poderia perder a oportunidade de estar do outro lado da sala de espelho. Como estímulo, eles pagavam um vale combustível, fator extremamente contraditório levando em conta a coleção que acabará de ser lançada. Tudo isso originou o primeiro post do It’sGreenDesign (…) Hoje o blog, além de acompanhar o encontro da Ética com a Estética em novos produtos, serve de sustentação para os meus projetos e do Patrick, arquiteto especializado em desenvolvimento urbano, que escreve da Itália.
Qual a tua crítica sobre o universo da moda e das grandes marcas linkando a tua idéia com esse vídeo – gravado por ti, a propósito?
– Sempre curti muito a moda como forma de expressão, como símbolo de uma época, de uma geração. Mas hoje a moda vende o tudo e o nada, em uma velocidade muita rápida. Acaba sendo a moda pela moda, a moda sem conteúdo. Hoje grandes marcas, seja no Brasil quanto no mundo pertencem a grandes grupos, marcas que nasceram e ficaram famosas pelos estilistas que estavam atrás delas, que praticamente começaram como artesãos. O vídeo foi gravado por acaso, na famosa rua Monte Napoleone, em Milão, quando o diabinho joga o líquido na vitrine da Dior, ele diz que era pra deixar a rua mais limpa, ou seja, quanta sujeira está por traz dessa indústria hoje (…)
O que tu tem a dizer sobre consumo consciente e como praticá-lo em grandes cidades?
– O consumo consciente é realmente ainda muito foda de ser praticado e eu ainda estou aprendendo. Na europa era mais fácil, ainda estou bastante impressionado com os hábitos de consumo americano, mesmo em meio a toda esta crise. Mas a crise acabará fazendo muitas pessoas reavaliarem o papel do consumo nas suas vidas e muitas favorecerão marcas mais engajadas eticamente. Separei por anos o lixo doméstico para reciclagem em Milão, hoje moro numa ilha (Manhattan, NYC) e inacreditavelmente não tenho coleta seletiva do lixo em casa. Busco compensar através das escolhas diárias das marcas e produtos que adquiro, presando qualidade, durabilidade, origem, matéria prima e embalagens ecologicamentes mais corretas.
Quanto a isso, de que forma acredita ser mais viável para engajar as pessoas tal qual os projetos que você desenvolve em sustentabilidade?
– Infelizmente a maneira mais fácil das pessoas se engajarem é através do medo (…) O medo da crise, o medo do futuro, do que pela consciência ambiental. Mas nos meus projetos tento sempre trazer algo de lúdico, nostálgico, que remeta a uma época onde as pessoas eram suspostamente mais felizes e o tempo passava mais “devagar”, um exemplo é o magazine online do
Gottino e alguns projetos para transforma-lo em eco-friendly, como por exemplo estimular o uso da bicicleta, fornecer refil de água gratuitamente, reavaliar os fornecedores, estimular o consumo de vinhos orgânicos, muitos deles produzidos desde sempre de forma artesanal por gerações de familias italianas.
Então explica pra gente qual o teu envolvimento com culinária além do I Love Gottino. Tu é do tipo que cozinha e faz as honras da casa?
– Que nada. Até morar na Itália, sempre fui super junk food, sai de casa muito cedo para estudar, sempre acabava priorizando o que fosse mais fácil e rápido. As honras da casa sempre foram com a minha namorada. Quando nos mudamos da Itália para os EUA, acabei me ligando no quanto tinha mudado os meus hábitos alimentares e o quanto eles estavam mais “green”. Pois a culinária italiana é naturalmente mais saudável, devido ao grande número de pequenos produtores e pela comida ser uma grande parte do patrimônio cultural italiano.
Aliás, de todas as cidades em que tu morou, qual a grande preferida?
– Barcelona ficou na história, amadureci muito em Milão e atualmente estou curtindo pra caralho NY, e adoraria morar ainda em Londres ou Paris.
Eu conheço uma série de gaúchos talentosos demais (especialmente na publicidade). Qual o segredo sulista?
– Segredo? Se ele existe ainda não estou sabendo, mas acredito em compromisso e dedicação, valores muito fortes no Sul (…) A minha dedicação vem através da busca por “tesão” em tudo o que eu faço.
Reza a lenda que ‘todo homem deve ter um filho, plantar uma árvore a escrever um livro’. Vê sentido nessa premissa à la dito popular e como se planeja para cumpri-lá?
– Plantei muitas árvores até hoje, tendo sido um guri criado no interior do RS brincando no jardim de casa e pelas ruas (…) Grande influência nos meus valores. O ItsGreenDesign nada mais é do que um “livro” dos nossos tempos contando semanalmente a história de uma sociedade supostamente em evolução. O próximo passo é o filho, para o qual já venho buscando um futuro mais sustentável.
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O título pode não ter nada a ver com o post. A não ser pela sincronicidade sonora: eu tava ouvindo Faith No More na hora de finalizar a edição da entrevista.
Foda a entrevista. E a moda está dependente cada vez mais do mundo sustentável, de fato.
Em NYC eles se preocupam tanto com a água.
Pena não terem coleta seletiva em Manhattan.