Fim & Prazer

I

Junio sempre imaginou, acreditando com todo o ímpeto de sua mente e convicção lógica, que existem, basicamente, duas motivações terrestres responsáveis por todo e qualquer comportamento masculino (masculino, já que Junio era homem; não capaz de elaborar teses existenciais sobre mulheres, pois, segundo ele próprio, para tanto, seria necessária uma vivência sob o prisma de uma mente feminina).

A primeira delas, e provavelmente presente no coração de todos os seres-vivos (inclusive mulheres), seria o medo da morte. Tudo que se faz, se pensa e se defende, quando pautamos regras de comportamento para nossa, na maioria das vezes, débil rotina de vida (claro que nada generalizado; mundo afora, existem aqueles que não temem o fim inevitável, por qualquer razão não presente nas cabeças do grande rebanho humano do qual pertencemos – são esses os que geralmente realizam algo grandioso, ou que, ao menos, partem dessa para melhor de maneiras pitorescas).

Com a alienação grotesca, típica de nosso jardim, sentimo-nos espreitados pela tragédia final com uma freqüência espalhafatosa. Podemos levar um tiro entre os olhos participando de uma discussão no trânsito, ter nosso filho seqüestrado na saída da escola, para depois ser esquartejado e cozinhado pelas mãos de um pedófilo serial-killer. Podemos, ainda, descobrir um câncer no joelho aos vinte anos de idade.

As oportunidades para nossa velha amiga são infinitas. E o medo? Ah, o medo (…) A morte nunca foi tão temida, estudada, posta à prova. Enraiza-se nos pavores de nossos vizinhos céticos e ateus, encavala-se nas estatísticas, deita sobre os noticiários.

Tememos um fim, mas também tememos um recomeço, tememos o novo, tememos nossa pequenez, nossa exigüidade.

Vivemos de quatro, presos por uma coleira de espinhos, guiados por esse avatar encapuzado de foice na mão.

Mas quando a oportunidade de voltar ao pó não é óbvia, nos remetemos à segunda motivação básica que guia a vida dos homens: Sexo.

É simples, material e exaustivamente comprovada. Dispensa argumentos freudianos e vale frisar, novamente, que vem em “segundo lugar” na corrida pela manipulação existencial (um homem, com faculdades mentais reguladas, sujeitar-se-ia a uma transa com a mulher de seus sonhos, sabendo ser sua musa HIV positivo?).

II

A meta de Junio, congruente à suas conclusões, era tão simples e grandiosa quanto banal e bizarra: desvendar os mistérios da morte para que pudesse, depois, libertado de tamanho fardo psicológico, caçar todo o sexo que sua alma reclamava, sem entraves, sem medo, com uma confiança heróica.

Aniquilar o ato de morrer. Sobreviver em gozo.

Desbravaria qualquer floresta celestial, derrubaria qualquer totem divino, amordaçaria qualquer conflito de consciência.

Mas por onde começar sua epopéia?

Será que existe sexo no paraíso?

E no inferno?

sex

+++

Conto sedido por Pedro Sfeir – músico por devoção e academia, e estudante de Direito (sem maiores explicações) – é do tipo que socializa falando putaria (sabe-como-é-né) e acredita na divindade chamada Charles Bukowski.

O que acho curiosamente engraçado é a seqüência deste post, vindo depois de uma semana à açúcar. Mera coincidência, aham.

6 Respostas para “Fim & Prazer”


  1. 1 Chantinon Novembro 12, 2008 às 9:03 pm

    Apesar de ser homem, assumo, sou açucarado. Mas adoro ler sobre esse mundo mundano. Adoraria que ele ficasse mais nos livros do Bukowski.
    Falando nesse velho safado e depressivo, você vai adorar o blog do Leon K. Nunes:
    http://literaturavil.blogspot.com/

    Vocês tem algo em comum :)

    Ah! Olha se falei o certo sobre seu blog:

    http://chantinon.blogspot.com/2008/11/corrigindo-injustias.html

  2. 2 Pedro Sfeir Novembro 12, 2008 às 10:12 pm

    Entao, na verdade Bukowski me faz rir e trabalha mais como um desencargo orgástico/humorístico do que como influência literária.

    Minhas raízes mais profundas vem de Kafka e Hunter Thompson (Fear & Loathing in Las Vegas);

    Tento, mas no consigo deixar o pessimismo e a violência de lado qdo finjo que boto as coisas no papel; sangue eh simplesmente divertido,

    não é?

  3. 3 luisandro Novembro 13, 2008 às 6:10 am

    tb tenho bukowski como um dos meus favoritos, deus é Pessoa, o resto sao santos.

  4. 4 Talita A. Novembro 14, 2008 às 2:56 am

    Pessoa, Capote, Wolfe e Thompson estão além. Embora Bukowski se esforce e faça valer a pena.

  5. 5 Pedro Sfeir Novembro 14, 2008 às 3:12 am

    Mas, meu…..tem uns modernosos por aí que arregaçam..

    Bret Easton Ellis; ja ouviram falar?

    Escreveu “Psicopata Americano”, que inspirou o filme (demais, tb, por sinal).

    …Chuck Palahniuk eh outro.

  6. 6 Talita A. Novembro 15, 2008 às 5:35 am

    Pedro: bah, claro! Assisti esse filme quando pequena. Gostei, mas fui meio que criticada ‘isso não é filme de criança, menina’ hahaha. Hoje em dia, sim, eu consigo meio entender qual foi a do cara.

    Bom, citei alguns caras que vejo como na escala ‘mito’. Mas, poxa, em dias contemporâneos, estamos bem servidos de literatura também. Vários nomes não me deixam mentir, de certo que a desmemória e a indecisão não contribuem muito agora (rs) mas a Vanessa Barbara é um puta exemplo. E é uma guria, tipo, da nossa idade praticamente. Também gosto da forma como a Diablo Cody (do Juno) escreve.

    Enfim, muita gente bacanuda neste nosso século.


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